Nesta sexta-feira (21), dois importantes aliados militares de Washington, Turquia e Israel, aumentaram a tensão da crise diplomática que vivem. Ancara emitiu um novo mandado de prisão contra o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e o governo em Tel Aviv reagiu dizendo que agirá contra “as tentativas da Turquia de desestabilizar a região”.
Não é a primeira vez que o governo turco, sob comando do autocrata Recep Tayyip Erdogan, pede a prisão de Netanyahu. Em novembro de 2025, a Turquia, país de maioria muçulmana, emitiu mandados de prisão para o primeiro-ministro e outras 36 autoridades israelenses, acusando-as de genocídio na Faixa de Gaza.
Nesta sexta, o mandado se refere às ações das forças de Israel contra a flotilha humanitária que tentou romper o bloqueio naval imposto por Tel Aviv contra Gaza. Netanyahu e membros de seu governo foram acusados dos crimes de lesão corporal, tortura, destruição de propriedade e roubo de bens, além de sequestro de veículos.
O governo de Israel foi amplamente criticado por diversos países, incluindo o Brasil, pelo tratamento dado aos ativistas interceptados em maio desse ano. Houve uma série de denúncias de maus-tratos e tortura a que os participantes da flotilha teriam sofrido sob custódia israelense.
Na época, o ministro israelense da Segurança Nacional, o extremista Itamar Ben-Gvir, publicou um vídeo com os membros da flotilha detidos com as mãos amarradas e a testa apoiada no chão. “Bem-vindos a Israel, é assim que tratamos os apoiadores do terrorismo”, dizia a legenda da publicação.
O chanceler israelense, Gideon Saar, acusou Ben-Gvir na ocasião de prejudicar a imagem internacional do país, e Netanyahu disse que “a maneira como Ben-Gvir lidou com eles não está de acordo com os valores e normas de Israel”. O governo, entretanto, negou todas as acusações de maus-tratos e disse que a interceptação da flotilha seguiu o que precogniza o direito internacional marítimo.
O ministro da Justiça da Turquia, Akin Gürlek, disse nesta sexta que seu país não aceitará “que o governo Netanyahu seja intocável e isento de responsabilização”. “Continuaremos a permanecer firmes ao lado do povo palestino, dos oprimidos e dos valores humanitários. Tomaremos todos os passos necessários para que aqueles que cometem crimes contra a humanidade prestem contas perante a justiça”, concluiu Gürlek.
O governo Netanyahu reagiu imediatamente. Em nota, chamou Erdogan de “ditador antissemita” e relembrou as várias prisões de jornalistas e políticos de oposição na Turquia. “Israel continuará a agir de maneira decisiva contra as tentativas [turcas] de desestabilizar a região”, diz o comunicado.
No X, a conta oficial do escritório do premiê israelense também publicou um vídeo justificando o ataque que escalou a crise nesta semana. Na terça (18), Israel bombardeou a base aérea de Abu al-Duhur, no noroeste da Síria, afirmando que a Turquia se preparava para enviar um contingente militar à instalação.
Um porta-voz de Netanyahu diz no vídeo que a base atacada fica a menos de 290 quilômetros do território israelense e que poderia representar uma ameaça. “Não permitiremos que a Turquia se entrincheire na Síria e se mova cada vez mais ao sul, na direção de Israel”, afirmou, acrescentando que Erdogan é um inimigo do Estado judeu.
A relação bilateral entre os países, cujo território é separado apenas pela Síria, começou a piorar depois dos ataques de 7 de outubro de 2023. O grupo terrorista Hamas, responsável pelos atentados que mataram 1.200 israelenses, conta com apoio diplomático de Erdogan, que, em 2020, recebeu líderes da facção extremista em visita oficial. A ação foi condenada na época por Israel e pelos EUA.
Ao longo da guerra na Faixa de Gaza, em que pelo menos 73 mil palestinos foram mortos em ataques israelenses, Erdogan criticou constantemente as ações de Tel Aviv. O presidente turco falou em genocídio e suspendeu todo o comércio e voos com Israel, mas não tomou o passo de romper formalmente as relações diplomáticas.
A Turquia é um de apenas cinco países no Oriente Médio que reconhecem a existência do Estado de Israel, ao lado de Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, o que tornaria qualquer piora mais severa nas relações extremamente danosa para Tel Aviv.
Soma-se a isso o fato de que a Turquia ocupa uma posição bastante elevada na lista de aliados dos EUA. Ancara é membro da Otan, a aliança militar liderada por Washington, opera mísseis e centenas de aviões de combate de fabricação americana, e é um dos seis países onde o Pentágono armazena armas nucleares. Somente a Alemanha, a Bélgica, a Holanda, a Itália e o Reino Unido também compõem essa lista.
Também por causa da proximidade entre Erdogan e o Hamas, a Turquia, ao lado do Egito e do Qatar -onde vivem hoje os líderes do grupo-, ajudou a negociar o acordo de paz entre Israel e o grupo terrorista chancelado por Trump com a criação do Conselho da Paz.
O progresso dos termos da trégua, entretanto, tem sido lento, e nesta quinta (20) Ancara, Doha e Cairo criticaram Israel por repetidos ataques em Gaza apesar do acordo. “A intensificação dos ataques israelenses mina os esforços internacionais em um momento crítico”, disseram os países em nota.
Fonte: NOTÍCIAS AO MINUTO
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